Etnia Cigana…

Algumas das mudanças ocorridas nos modos de vida do grupo cigano em Portugal, correspondem a tentativas de adaptação a novas condicionantes estruturais. O progressivo desaparecimento dos seus quotidianos do “caló ou romano”, a concentração espacial das linhagens, a sedentarização, a multiplicação e a densificação das relações quotidianas com os não ciganos, a procura de outras vias de inserção laboral, a vivência e a coabitação em bairros de habitação social, são respostas comportamentais que reflectem a adaptação do grupo étnico cigano face a novas necessidades e mudanças que vêm do seu exterior. Tal pressupõe transformações nos padrões de comportamento deste grupo étnico, de modo a proporcionar um acesso mais facilitado aos mecanismos e aos contextos de integração. A dificuldade aqui está em situar os limites a partir dos quais se dilui a identidade étnica (Marques, 2007).

Fraser (1995), refere que alguns traços culturais fazem parte da identidade cultural do grupo, como a língua, a noção do espaço território (enquanto espaço cultural de tradição e história comum), económico (feiras e mercados preferenciais) e sociopolítico (de organização social intragrupo), as crenças e ritos religiosos e a partilha de um quadro de valores próprio (o respeito pelos mais velhos, a ajuda mútua, a família, o casamento e a boda tradicional cigana, a virgindade da mulher, etc.). Apesar de permanentes alterações no conteúdo cultural, mantém-se a sua identidade étnica.

Embora as capacidades de adaptabilidade demonstradas pelo grupo étnico cigano em Portugal se tenham traduzido em melhorias nas suas condições socioeconómicas e de vida, não houve correspondência em termos de protagonismo sociopolítico e em distintividades sociais. Observam-se algumas situações de mobilidade social, porém, tal fenómeno está longe de ter a tradução e repercussão num projecto mais alargado de promoção e de mudança grupal com impacto no seu estatuto social e na construção de uma imagem pública positiva (Marques, 2007).

Segundo investigações realizadas em Portugal, ao ponderar a capacidade de acção e decisão dos actores sociais sobre a mudança, verificou-se que os trajectos e os projectos de vida se apresentam condicionados a determinados constrangimentos, tais como: o preconceito, a rejeição e o estereótipo secular, os baixos níveis de escolarização, a inserção precária no mercado de trabalho, a participação política, associativa e cívica passiva, o não exercício dos direitos de cidadania e o diferente usufruto de benefícios e apoios estatais na sua plenitude. Regista-se ainda uma ausência de perspectivas, ou seja, de projectos de vida assentes numa óptica de mobilidade social ascendente. Assumem assim uma atitude de apatia e de descrença quanto à sua capacidade de protagonismo no sentido de mudança. As vivências são marcadas por um tempo presente e por referência a um passado reprodutor de marginalizações constantes (Mendes, 2005). “Torna-se, então necessário, ter em conta a dinâmica da reprodução social, por força do peso dos constrangimentos sociais” (p.201).

No entanto, em contrapartida com a ideia anterior, se é verdade que os ciganos reivindicam os seus direitos, porque são cidadãos, também deveriam cumprir os seus deveres, e é aqui que existe um choque, que se verifica muito na sociedade Portuguesa. Como exemplo prático pode-se referir a questão dos membros da etnia cigana requerem o Rendimento Social de Inserção e outros rendimentos e no entanto recusarem-se a cumprirem com alguns deveres de cidadãos, justificando muitas vezes com as suas crenças e a sua cultura. Se é verdade que devemos respeitar as crenças e a cultura do outro, também é verdade que deveria haver um equilíbrio. Neste sentido, o Governo Português, através do sistema nacional da segurança social, obriga as pessoas de etnia cigana a frequentar a escola, formações e outras actividades em troca da atribuição do Rendimento Social de Inserção.

Referências:

Fraser, A. (1995). História do Povo Cigano. 2ª Edição. Círculo de Leitores.

Marques, J. F. (2007). Do “não racismo” Português aos dois racismos dos Portugueses. Lisboa: Alto-Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, I.P. (ACIDI).

Mendes, M. M. F. (2005). Nós, os Ciganos e os outros – Etnicidade e Exclusão Social. Lisboa: Livros Horizonte.

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Comentários
  1. Ana Oliveira diz:

    Tem sido muito bom trabalhar com o PIEF A de Espinho! O contacto com esta cultura diferente fez-me ver as coisas maravilhosas que esta etnia apresenta!

    ****
    TIL

  2. Alexandra Sousa diz:

    Esta etnia sempre me suscitou curiosidade, porque sao um povo muito unido, com tradicoes muito enraizadas e respeitadas, no entanto, este grupo do PIEF e outros ciganos com quem ja me relacionei mostraram-me que apesar de ainda ser uma etnia muito fechada, ja comecam a ser mais abertos a sociedade em que estao inseridos.

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